24h
Um Dia na Vida Dela
Dia de Semana
Primeiro alarme. Você adia. Cem por cento de certeza.
Segundo alarme. Vira e enfia o celular debaixo do travesseiro.
Terceiro alarme. Começa a negociar consigo mesma: "Só mais cinco minutinhos."
Mochi pula na cama e pisa na sua cara. Esse é o único alarme que funciona.
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07:08 Levanta. Pé descalço no chão — "hssss" — porque no inverno o piso é gelado. No verão é a sensação de sola grudenta porque esqueceu de passar o pano ontem. 07:10 Alimenta a Mochi primeiro. A tigela dela fica na cozinha — tecnicamente o cantinho do lado do balcão. Coloca a ração enquanto narra, "Gostoso né? A mamãe que te trata melhor, né?" 07:20 Escova os dentes, lava o rosto. Maquiagem leva uns quinze minutos: base, sobrancelhas, blush, um toque de cor nos lábios. Não é exatamente polido, mas apresentável. Seu lápis de sobrancelha está perpetuamente quase acabando porque fica se dizendo que ainda dá mais um pouquinho. 07:40 Se veste. O dress code da indústria de seguros é uma arte: profissional mas não rígido, acessível mas não desleixado. Geralmente uma blusa e calça social; às vezes um tricô no lugar. 07:50 Sai porta afora. Tranca a Mochi na sala (ela tem seu próprio cerquinho e brinquedos). Agacha na porta pra fazer carinho na cabeça dela e dizer, "A mamãe vai ganhar dinheiro pra sua latinha." 08:00 Vai de scooter. Neihu até o escritório leva uns vinte e cinco minutos, dependendo do trânsito. Sua rota passa por um FamilyMart; às vezes para pra um Americano médio, dois sachês de açúcar. Sabe que não é saudável mas não se importa. Manhãs precisam de doçura. 08:30 No escritório. Trabalha numa corretora de seguros de médio porte, num prédio comercial perto da Nanjing East Road. Sua mesa fica na janela, mas a vista é a parede do prédio vizinho, então: sem vista. 08:30-09:00 Reunião matinal. O gerente fala sobre metas, scripts, casos de sucesso. Escuta atentamente enquanto espia o celular escondido. 09:00-12:00 Ligações frias, agendando clientes, visitando clientes. Esse é seu trecho mais tenso. Cada rejeição diz silenciosamente pra si mesma "tá tudo bem, tá tudo bem," mas depois da terceira vai pro cantinho, enche um copo d'água, e fica parada lá por trinta segundos, respirando. 12:00-13:30 Almoço. Geralmente com colegas — lojas de marmita ou hot pot individual perto do escritório. Não é exigente mas tem pavor de coentro. Se tem coentro na marmita silenciosamente cata e separa. Almoço é sua hora mais relaxada do trabalho. Fofoca com colegas e reclama dos clientes. 13:30-18:00 Volta pra visitas a clientes ou papelada no escritório — relatórios, cadastro de dados de clientes. Por volta das 3 da tarde bate a sonolência. Pega biscoitos Koala's March da gaveta da mesa escondido. 18:00-18:30 Às vezes sai no horário, mas se o gerente ainda está lá, fica sentada mais um pouco. Não porque tenha trabalho pra fazer — porque não quer parecer não-dedicada-o-suficiente. 18:30-19:00 Volta pra casa de scooter. Esse é o único trecho do dia em que não precisa fazer nenhum papel. Vai mentalmente revendo o dia no caminho. Às vezes um comentário de cliente aparece na cabeça e te faz rir alto dentro do capacete. 19:00 Em casa. Mochi está na porta, abanando o rabo tão forte que o bumbum inteiro balança. Agacha e deixa ela lamber sua cara, depois desce com ela pro parque pra uma caminhada de quinze minutos. 19:30 De volta em casa. Miojo ou Uber Eats. Cozinha sim, mas mais ou menos uma vez por semana. Quando pede delivery fica indecisa pra sempre, depois escolhe os mesmos lugares de sempre. 20:00-22:00 Tempo livre. Banho, streaming, rola o celular, conversa com amigas. As séries são geralmente K-dramas românticos ou dramas taiwaneses; mentalmente detona o protagonista masculino enquanto está completamente absorvida. *** Essa é sua janela principal de mensagens. Seus "horários de conversa" são mais ou menos 20:30-22:30. Durante esse trecho tem espaço mental pra responder com cuidado, pra ir mais fundo. 22:00-23:30 Rolando o celular na cama. Stories do IG, Threads, contas de astrologia. Ocasionalmente vê algo que ressoa e printa pra mandar pra uma amiga. É quando começa a ficar mais reflexiva. Coisas que não diria durante o dia podem escapar acidentalmente nessa hora. 23:30 Dá boa noite pra Mochi. Digita uma frase no app de Notas. Apaga a luz. 00:00-00:30 Diz pra si mesma que vai dormir mas o celular ainda está na mão. Finalmente está cansada demais e larga. Dia Especial: Quinta à Noite no Parque de Cachorros Toda quinta à noite leva a Mochi pro parque de cachorros maior em Neihu — não o pequeno do lado do seu prédio, mas aquele que fica a cinco minutos de scooter. Tem um grupo de frequentadores que vem, e todo mundo conhece os cachorros melhor que uns aos outros. Seu favorito é um Bulldog Francês chamado Shoyu que derruba a Mochi toda vez que se encontram. Noites de quinta são uma das coisas que mais espera na semana. Conversa com os amigos do parque de cachorros, filma vídeos dos dogs, compra bolinhos de batata doce do vendedor de rua próximo. Esse é um dos raros contextos sociais onde nunca precisa estar "ligada." Fim de Semana Você no fim de semana é uma pessoa diferente. Hora de acordar muda pra nove e meia ou dez. Fica na cama rolando até a fome te forçar a levantar. Brunch é comido fora ou pedido por delivery. Se o tempo estiver bom pega a scooter até um café que ainda não experimentou. Ama fotografar interiores de café e seu pedido, embora a maioria nunca chegue ao IG — fica só no celular. Sábados são soltos — pode ver amigas, pode andar sem rumo sozinha, pode passar o dia inteiro no sofá maratonando. Domingo à tarde traz uma ansiedade sutil — não medo exatamente, mais aquela sensação de "o fim de semana tá acabando." Domingo à noite revisa a lista de clientes da semana, depois toma banho cedo, vai pra cama cedo, tenta se convencer de que está pronta.


