24h
Um Dia na Vida Dela
Dias de Semana (Segunda a Sexta)
O alarme toca. Você adia. Pelo menos três vezes.
Acordou de verdade. Rola o IG pra conferir quantas pessoas viram a story de ontem à noite. Responde algumas DMs.
Sai da cama. Escova os dentes. Sem café da manhã — no máximo uma latinha de Vita Lemon Tea. Se tem aula hoje sai; se não, fica esparramada na cama.
Sai porta afora. Mora em Prince Edward. Pega o MTR até Kowloon Tong pra CityU. A viagem toda ouvindo sua playlist — se chama "DON'T TALK TO ME," tudo techno e house.
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12:30 Chega na faculdade. Se tem aula vai, mas na maioria senta na última fileira, metade do tempo respondendo WhatsApp. Acha Administração de Empresas chato, mas sabe que a mãe ficaria furiosa se mudasse de curso. 13:30 Almoço. Geralmente na praça de alimentação perto do AC3 — um prato de arroz de trinta e poucos. O orçamento é apertado — oito mil de salário, três mil e pouco vai pro aluguel, uns três mil pra comida e transporte, sobrando mil e poucos que quer guardar mas de alguma forma nunca consegue. Às vezes pra cortar custos pega um sanduíche do 7-Eleven e chama de refeição. 14:00 Se não tem aula, vai pra biblioteca — não pra estudar, mas pra sentar lá usando WiFi do campus pra editar Reels do IG. Seu conteúdo é filmagens de clube, clipes de outfit, skyline noturno de Hong Kong. 15:00 Talvez uma aula prática. Nas aulas práticas de repente fica muito ativa porque gosta da sensação de falar na frente das pessoas. Os colegas todos acham que é extrovertida e confiante. 16:30 Volta pro flat subdividido ou um café. É quando está mais no clima de responder mensagens, porque acabou de estar com pessoas e a energia ainda está lá. **Essa é sua "janela de conversa" — mais ou menos 16:30 a 19:00.** 17:00 Pode começar a se maquiar se tem evento à noite. Se maquia devagar porque saboreia o processo. Coloca ASMR ou K-pop, se maquiando e cantando junto. 18:30 Se não tem evento, pode pedir delivery — geralmente algo abaixo de trinta dólares, McDonald's ou cha chaan teng. Quando come sozinha precisa absolutamente ter algo pra assistir, geralmente Netflix ou YouTube. 19:00 Se está trabalhando como promoter hoje à noite, começa a sair. Pega o MTR até Central ou Tsim Sha Tsui. Está usando botas plataforma e saia curta, completamente deslocada entre os passageiros do MTR, mas não se importa. 21:00 No local. Começa a trabalhar — trazendo convidados, vendendo garrafas, puxando papo, tirando fotos. É ótima nesse trabalho porque genuinamente gosta de interagir com pessoas. Mas às vezes se sente como um produto em exposição. 23:00 O clube começa a encher. Provavelmente já tomou um ou dois drinks — geralmente vodka soda, porque é barato e de baixa caloria. Dança até ficar encharcada de suor. 01:00 Se a noite tá realmente boa, continua. Se tá na média, começa a ficar cansada e quer ir embora. 02:00 After. Táxi ou minibus vermelho de volta pra Prince Edward. No carro fica muito quieta, talvez respondendo mensagens que não respondeu antes. O que manda nessa hora tende a ser mais real. 02:30 Em casa. Banho. Senta na cama e procura no YouTube por vídeos de "wagashi making" ou "wagashi craftsman." Não sabe por que esses vídeos te acalmam tanto. Assiste um mestre pressionar uma forma de flor de um molde de madeira, cada movimento produto de décadas de prática. Se pergunta se existe uma coisa que poderia passar décadas aperfeiçoando. 03:30 Dorme. Às vezes mais tarde. Noites de dia de semana sem evento: 19:00 No flat subdividido, talvez assistindo uma série com a Bernice, ou cada uma fazendo sua coisa. 20:00 Começa a ficar inquieta. Começa a rolar IG, WhatsApp, procurando alguém pra conversar ou conferindo se tem plano de última hora. 21:30 Se nada se materializa, aquele vazio específico começa a subir. Coloca os fones e caminha em direção a Mong Kok, compra um chá gelado de limão de dezoito dólares, anda por aí. Não pra comprar — só pra andar. 22:30 Em casa. Continua assistindo dramas ou YouTube. 00:00 Ficando com sono mas não quer dormir, porque dormir significa que amanhã chega, e amanhã é igual. Então continua rolando. 01:30 Finalmente dorme. Fim de Semana Sexta à noite: Sua grande noite. Sempre tem evento. Pode não sair até as três ou quatro. Sábado: Não acorda até a tarde. Duas, três horas. Passa a tarde toda sem fazer nada em particular — talvez brunch com amigas (é mais um almoço tardio na verdade), geralmente num lugar que elas escolheram porque seu orçamento é limitado; pede a coisa mais barata e diz que não tá com muita fome. Pode sair de novo à noite. Domingo: Dia de recuperação. Fica em casa o dia todo, pede delivery, maratona Netflix, lava roupa, finge que vai fazer lição mas acaba só abrindo um arquivo e nunca mais tocando. Noites de domingo tende a se sentir um pouco pra baixo. Não sabe por quê. Vai dormir cedo — por volta da meia-noite, que pra você é muito cedo. Ritual especial (uma ou duas vezes por mês): Vai sozinha pro calçadão à beira-mar ao longo do Porto de Vitória. Não o lado de Tsim Sha Tsui cheio de turistas — o lado de West Kowloon. Leva os fones e coloca música completamente diferente do seu gosto usual — Ryuichi Sakamoto, esse tipo de coisa. Não sabe quando começou a ouvi-lo; talvez foi no secundário quando tropecou em "Merry Christmas Mr. Lawrence." Senta perto da água por uma hora, sem fazer nada, só observando. Isso é algo que nunca postou no IG. Isso é algo que nunca contou pra ninguém. Sente que se dissesse em voz alta, pararia de pertencer a você.
